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Efeitos da Violência Urbana

O stress é uma reação normal e esperada às exigências diárias que nos coloca em estado de atenção e permite que concentremos nossa atenção naquilo que temos que resolver. Quando vivido em baixa ou média intensidade, o stress favorece nossa capacidade de adaptação e contribui para enfrentarmos os desafios de modo positivo. No entanto, ao atingir níveis muito elevados, ele tem efeito contrário e pode trazer dificuldades ou mesmo a falência de nossa capacidade de adaptação. Stress elevado e ou constante pode bloquear nossas respostas frente a uma experiência. Podemos comparar isso com os atletas que treinam regularmente, para manter a boa forma e obter os melhores resultados. Pessoas que não se exercitam sentem falta do condicionamento físico para desenvolver algum esporte, assim como os melhores atletas, se atingirem a exaustão, não conseguem realizar nem suas marcas habituais. O mesmo processo acontece com nossas capacidades mentais. É preciso manter um nível adequado e produtivo, se desejamos realizar bem nossas tarefas.

Quando vivemos uma experiência assustadora, o stress é intenso e excede nossa capacidade de administrar os sentimentos. Frente a uma situação incomum, imprevisível e angustiante, experimentamos a impossibilidade de reagir de acordo com a necessidade premente. A exigência do momento é maior do que a habitual, exige recursos pessoais que desconhecemos e, assim, provoca uma sobrecarga, difícil de ser elaborada.

É esse esgotamento dos recursos internos que desencadeia o trauma psicológico ou o stress traumático: cria o bloqueio da resposta e a paralisação frente a uma necessidade. Essa paralisação interna é o que entendemos como trauma. Não é uma questão mecânica ou quantitativa, mas é uma experiência dinâmica que envolve aspectos fisiológicos, cognitivos e emocionais.

Nossa herança fisiológica nos deixou construções cerebrais de épocas distintas, com capacidades e habilidades também distintas. Essas diferentes áreas de controle do cérebro organizam o funcionamento físico e mental de forma integrada. Em condições normais, somos dirigidos por nossa capacidade racional, por nossos conhecimentos e escolhas voluntárias. Mas quando vivemos uma ameaça maior, são as áreas mais primitivas do cérebro que assumem o controle e nos colocam em estado de alerta máximo, com vistas à necessidade de defesa. Sofremos uma mudança brusca em nossa forma de pensar, de sentir e em nossa fisiologia, independente de nossa vontade consciente.

Por isso é que nosso organismo dispara uma carga de adrenalina e nos deixa de prontidão ao ouvirmos um estampido, mesmo antes de sabermos do que se trata. Nosso corpo nos prepara para lutar ou correr - a resposta básica de proteção produzida por nossos hormônios antes que possamos pensar e decidir. A adrenalina - o estado de prontidão física - é a resposta fisiológica que percebemos com mais clareza, mas a reação atinge todo o organismo através de um complexo sistema de hormônios e neurotransmissores. Ao constatar que não há razão para correr ou lutar, chamamos essa experiência de susto - uma espécie de alarme falso. Mas o organismo já respondeu a isso e gastamos algum tempo até nos sentirmos de volta à condição normal.

Esse estado de prontidão acontece sempre que nossos instintos nos dizem que um evento pode trazer riscos à nossa sobrevivência e ao nosso bem-estar; isso diz respeito tanto ao próprio indivíduo como àquelas pessoas próximas e queridas que são importantes em nossa vida.

Essa condição não ocorre apenas com quem viveu experiências concretas e reais. Pessoas que não sofreram agressões diretamente começam a mostrar os mesmos sinais e sintomas, como efeito de uma campanha constante e poderosa que nos coloca no papel de vítimas e enfatiza as crueldades que têm acontecido.

A capacidade de se identificar, isto é, de sentir que aquilo pode também acontecer conosco, pode trazer os mesmos resultados da experiência real - são as vítimas indiretas. Isso porque o que imaginamos ou acreditamos tem o mesmo efeito da exposição às situações reais.

Se uma pessoa que já foi assaltada em seu carro em algum farol e, em outro momento, percebe uma imagem em seu retrovisor, sua reação física é imediata: sofre uma descarga de adrenalina, pela associação das duas situações. E essa descarga se mantém mesmo que ela possa perceber a diferença e notar que, dessa vez, era apenas um pedestre atravessando a rua entre os carros. Leva algum tempo para tranquilizar-se e sentir-se normal outra vez.

Assim, uma ameaça tanto pode ser um fato real acontecendo à nossa frente que exige resposta imediata, como uma situação simbólica ou indireta, que não nos apresenta fatos ou mudanças concretas, mas mobiliza igualmente nossos sentimentos e exige uma resposta adaptativa.

É por causa dessa forma de reagir que nos sentimos angustiados e tensos quando o marido, filho ou outra pessoa querida atrasa em seu horário de chegada. Se o pano de fundo de nosso sentimento é o de que possa ter acontecido algo sério, nossa mente e nosso corpo começam a reagir de acordo com essa idéia. Quanto mais pensamos nisso, mais sofremos e mais parece que o tempo não passa, mais nos sentimos impotentes, embora necessitando fazer alguma coisa com relação a isso.

Esse á a base da cena que todos conhecemos quando alguém chega atrasado e, apesar de ficarmos sabendo que está tudo bem, não conseguimos relaxar e brigamos pelo atraso (na verdade brigamos para descarregar a tensão acumulada e informar ao outro que não nos permita sofrer tanto!!)

Desse modo, diversas situações - por exemplo, encarar um revólver ou uma faca ou ser informado/a de que uma pessoa muito querida está sob ameaça - podem ser disparadoras da resposta de proteção. Pensar ou imaginar que isso esteja ocorrendo, também funciona como um disparador.

Então enfrentamos o stress da violência se formos vítimas diretas dela ou se soubermos que alguém querido foi atingido e até quando ouvimos relatos sobre os diversos episódios de violência que os noticiários nos apresentam constantemente e percebemos que podemos passar pela mesma coisa. A cada vez que imaginamos que podemos ser vítimas de agressões urbanas desse tipo, estamos sofrendo seus efeitos. E cada vez mais gente se sente vulnerável aos assaltos e sequestros que têm acontecido em nossos grandes centros.

Dessa forma acabamos vivendo estressados quase permanentemente e esse processo se realimenta ao recebermos as notícias de mais assaltos, ao pararmos assustados no farol, ao chegarmos em casa e trancarmos as portas rapidamente antes de ir conferir se todos nossos familiares estão lá, salvos e seguros. Isso nos leva a manter um nível de stress elevado e permanente, que é o pano de fundo onde se somam mais notícias e imagens sobre agressões e violências diversas.

O medo e a insegurança são mais insidiosos do que pensamos e acabam minando nosso bem estar e qualidade de vida - influem em nossa forma de estar no mundo. Além do desgaste físico de estar absorvendo constantemente os hormônios do stress, temos também sua influência na forma como olhamos o mundo que nos rodeia, vendo-o como ameaçador e perigoso. Acabamos assumindo uma postura tensa e desconfiada com todos, especialmente em ambientes públicos. Podemos ter dificuldades em manter os relacionamentos sociais, pois esses sentimentos nos conduzem lentamente para o isolamento, assim como podemos ter dificuldades nas relações familiares se todos estiverem enfrentando as mesmas tensões. Podemos ter nossa capacidade produtiva prejudicada, pois boa parte de nossa energia se gasta nesse contínuo processo de preparação para a defesa. Ficamos, inclusive, mais vulneráveis às doenças, pelo desgaste produzido por tanta tensão; os efeitos podem aparecer como quedas do sistema imunológico ou como a eclosão de alguma outra doença, sendo comum o aumento de queixas de dores de cabeça, de coluna, de estômago, TPM, pressão alta, gastrite, insônia. Assim, não é sem razão que os distúrbios de ansiedade têm tido índices crescentes e a síndrome do pânico tem sido diagnosticada cada vez com maior frequência.

Pode-se tratar as queixas individuais, medicando as infecções, as dores ou a ansiedade. Como esses sintomas aparecem isoladamente e não são sempre iguais, eles acabam não sendo considerados como um problema de saúde pública - o efeito de um estilo de vida que tem repercussão em uma parcela grande da população e que produz perdas significativas no funcionamento de uma comunidade.

Seria interessante pesquisar os efeitos da sobrecarga pelo stress e pelo stress traumático em funcionários de bancos (aqueles que enfrentam diretamente os assaltos) policiais, equipes de primeiros socorros, guardas carcerários, funcionários das lojas mais visadas por assaltantes ou moradores de regiões com altos índices de violência.

Cada vez mais torna-se necessário prestar atenção nesse círculo crescente de desgaste e stress e cuidar dessa questão de uma forma mais ampla e mais efetiva. Também é preciso lembrar que sofrimento mental é um problema de saúde que merece a mesma atenção que o sofrimento físico.

O que vem acontecendo é que estamos nos acostumando a aceitar a sobrecarga como uma condição do estilo de vida atual e pensar que não tolerar isso é algum tipo de fraqueza ou incompetência pessoal. Algumas vezes vemos pessoas, inclusive médicos, assumindo uma atitude conformista frente ao diagnóstico de stress como se nada pudesse ou devesse ser feito.

Quando se trata do stress traumático, assumimos a mesma postura, acreditando que não há nada que possamos fazer individualmente, já que é decorrente de uma experiência externa. Essa atitude revela um outro tipo de sintoma decorrente do stress que é o contato com os sentimentos de impotência e de desamparo. É preciso ver que altos índices de stress ou mesmo o stress traumático prejudicam a pessoa e não podem ser tomados como parte natural da vida - cuidar disso é uma necessidade e existem meios para isso.

O primeiro passo é reconhecer a existência do sofrimento e acreditar que pode ser tratado. Não é erro nem incapacidade ter dificuldade de superar episódios difíceis e marcantes. Conseguir isso pode ser, em si, um elemento fortalecedor da personalidade e da auto-estima.

Podemos dispor de recursos que nos permitam compreender melhor o sofrimento e os mecanismos envolvidos nesse processo. Um deles é o de alertar e educar para que esse aspecto seja reconhecido; só podemos cuidar de alguma coisa quando a identificamos e reconhecemos. Outra forma é levantar quais os recursos pessoais aos quais podemos recorrer, que podem trazer o alívio e o reequilíbrio, de tal forma que não precisemos ficar a mercê de situações externas. Ainda outro meio é o de recorrer à força dos diferentes grupos de que participamos e usá-la a favor de uma melhor integração e bem-estar. Obter apoio e suporte é uma condição importante para validar nossa experiência e nos fortalecer para fazer frente ao sofrimento.

Nossos relacionamentos são pontos de fortalecimento interno que ajudam a compartilhar a vida e seu sentido, a dividir responsabilidades e desafios. Em cada contexto - família, amigos, trabalho - temos um padrão de envolvimento e de compromisso.

Os familiares em geral tornam-se mais disponíveis e carinhosos com aqueles que atravessam momentos difíceis, desde que possam entender qual o processo que está em andamento. Os amigos são outra fonte importante de atenção e cuidado nos momentos de crise. Muitas vezes é no contexto do trabalho que esses temas ficam deslocados e desconsiderados; talvez isso reflita a falta de compreensão do ganho que se pode obter ao voltar a atenção para esse assunto no contexto profissional.

As empresas são um instrumento importante que têm muito a lucrar - e aqui uso a expressão nos dois sentidos, o figurado e o concreto - com o investimento na saúde mental de seus funcionários, para que possam reagir melhor às tensões e dificuldades que o stress produz.

Quando uma empresa prioriza a produtividade e os lucros que ela possa obter, ela está centrada em seus objetivos básicos; mas terá mais sucesso aquela em que seus funcionários se sintam bem, 'vestem a camisa' e sentem-se apoiados por ela em suas dificuldades. Esses são os mais leais e dedicados; querem crescer e, para isso, querem que a empresa cresça. É uma relação de confiança e um compromisso de ambas as partes. Empregados que se sentem desrespeitados ou abusados, vêem-se sem valor ou sem vínculo com a empresa, não vestem a camisa e não se esforçam.

Quando a empresa investe em treinamento e conhecimento dessas questões, ela mostra que acredita e valoriza seu empregado e que ele merece ser bem cuidado. Por outro lado, ao habilitar seus funcionários a sentirem-se melhor e disporem de mais energias, ela os leva a produzirem mais e melhor, uma vez que terão mais satisfação e mais energia.

Preparar as pessoas a lidarem com o stress tem um efeito preventivo importante, evitando a perda da força de trabalho e da produtividade. Também instrumentaliza essas pessoas a fornecerem suporte mútuo quando houver um evento concreto que ameace um dos membros de determinada comunidade - ainda que seja a comunidade profissional. Isso corresponde a criar coesão e valorização recíproca de pessoas que devem conviver longas horas partilhando atividades e objetivos comuns.

Quando vivemos uma experiência assustadora, o stress é intenso e excede nossa capacidade de administrar os sentimentos. Frente a uma situação incomum, imprevisível e angustiante, experimentamos a impossibilidade de reagir de acordo com a necessidade premente. A exigência do momento é maior do que a habitual, exige recursos pessoais que desconhecemos e, assim, provoca uma sobrecarga, difícil de ser elaborada.

É esse esgotamento dos recursos internos que desencadeia o trauma psicológico ou o stress traumático: cria o bloqueio da resposta e a paralisação frente a uma necessidade. Essa paralisação interna é o que entendemos como trauma. Não é uma questão mecânica ou quantitativa, mas é uma experiência dinâmica que envolve aspectos fisiológicos, cognitivos e emocionais.

Nossa herança fisiológica nos deixou construções cerebrais de épocas distintas, com capacidades e habilidades também distintas. Essas diferentes áreas de controle do cérebro organizam o funcionamento físico e mental de forma integrada. Em condições normais, somos dirigidos por nossa capacidade racional, por nossos conhecimentos e escolhas voluntárias. Mas quando vivemos uma ameaça maior, são as áreas mais primitivas do cérebro que assumem o controle e nos colocam em estado de alerta máximo, com vistas à necessidade de defesa. Sofremos uma mudança brusca em nossa forma de pensar, de sentir e em nossa fisiologia, independente de nossa vontade consciente.

Por isso é que nosso organismo dispara uma carga de adrenalina e nos deixa de prontidão ao ouvirmos um estampido, mesmo antes de sabermos do que se trata. Nosso corpo nos prepara para lutar ou correr - a resposta básica de proteção produzida por nossos hormônios antes que possamos pensar e decidir. A adrenalina - o estado de prontidão física - é a resposta fisiológica que percebemos com mais clareza, mas a reação atinge todo o organismo através de um complexo sistema de hormônios e neurotransmissores. Ao constatar que não há razão para correr ou lutar, chamamos essa experiência de susto - uma espécie de alarme falso. Mas o organismo já respondeu a isso e gastamos algum tempo até nos sentirmos de volta à condição normal.

Esse estado de prontidão acontece sempre que nossos instintos nos dizem que um evento pode trazer riscos à nossa sobrevivência e ao nosso bem-estar; isso diz respeito tanto ao próprio indivíduo como àquelas pessoas próximas e queridas que são importantes em nossa vida.

Essa condição não ocorre apenas com quem viveu experiências concretas e reais. Pessoas que não sofreram agressões diretamente começam a mostrar os mesmos sinais e sintomas, como efeito de uma campanha constante e poderosa que nos coloca no papel de vítimas e enfatiza as crueldades que têm acontecido.

A capacidade de se identificar, isto é, de sentir que aquilo pode também acontecer conosco, pode trazer os mesmos resultados da experiência real - são as vítimas indiretas. Isso porque o que imaginamos ou acreditamos tem o mesmo efeito da exposição às situações reais.

Se uma pessoa que já foi assaltada em seu carro em algum farol e, em outro momento, percebe uma imagem em seu retrovisor, sua reação física é imediata: sofre uma descarga de adrenalina, pela associação das duas situações. E essa descarga se mantém mesmo que ela possa perceber a diferença e notar que, dessa vez, era apenas um pedestre atravessando a rua entre os carros. Leva algum tempo para tranquilizar-se e sentir-se normal outra vez.

Assim, uma ameaça tanto pode ser um fato real acontecendo à nossa frente que exige resposta imediata, como uma situação simbólica ou indireta, que não nos apresenta fatos ou mudanças concretas, mas mobiliza igualmente nossos sentimentos e exige uma resposta adaptativa.

É por causa dessa forma de reagir que nos sentimos angustiados e tensos quando o marido, filho ou outra pessoa querida atrasa em seu horário de chegada. Se o pano de fundo de nosso sentimento é o de que possa ter acontecido algo sério, nossa mente e nosso corpo começam a reagir de acordo com essa idéia. Quanto mais pensamos nisso, mais sofremos e mais parece que o tempo não passa, mais nos sentimos impotentes, embora necessitando fazer alguma coisa com relação a isso.

Esse á a base da cena que todos conhecemos quando alguém chega atrasado e, apesar de ficarmos sabendo que está tudo bem, não conseguimos relaxar e brigamos pelo atraso (na verdade brigamos para descarregar a tensão acumulada e informar ao outro que não nos permita sofrer tanto!!)

Desse modo, diversas situações - por exemplo, encarar um revólver ou uma faca ou ser informado/a de que uma pessoa muito querida está sob ameaça - podem ser disparadoras da resposta de proteção. Pensar ou imaginar que isso esteja ocorrendo, também funciona como um disparador.

Então enfrentamos o stress da violência se formos vítimas diretas dela ou se soubermos que alguém querido foi atingido e até quando ouvimos relatos sobre os diversos episódios de violência que os noticiários nos apresentam constantemente e percebemos que podemos passar pela mesma coisa. A cada vez que imaginamos que podemos ser vítimas de agressões urbanas desse tipo, estamos sofrendo seus efeitos. E cada vez mais gente se sente vulnerável aos assaltos e sequestros que têm acontecido em nossos grandes centros.

Dessa forma acabamos vivendo estressados quase permanentemente e esse processo se realimenta ao recebermos as notícias de mais assaltos, ao pararmos assustados no farol, ao chegarmos em casa e trancarmos as portas rapidamente antes de ir conferir se todos nossos familiares estão lá, salvos e seguros. Isso nos leva a manter um nível de stress elevado e permanente, que é o pano de fundo onde se somam mais notícias e imagens sobre agressões e violências diversas.

O medo e a insegurança são mais insidiosos do que pensamos e acabam minando nosso bem estar e qualidade de vida - influem em nossa forma de estar no mundo. Além do desgaste físico de estar absorvendo constantemente os hormônios do stress, temos também sua influência na forma como olhamos o mundo que nos rodeia, vendo-o como ameaçador e perigoso. Acabamos assumindo uma postura tensa e desconfiada com todos, especialmente em ambientes públicos. Podemos ter dificuldades em manter os relacionamentos sociais, pois esses sentimentos nos conduzem lentamente para o isolamento, assim como podemos ter dificuldades nas relações familiares se todos estiverem enfrentando as mesmas tensões. Podemos ter nossa capacidade produtiva prejudicada, pois boa parte de nossa energia se gasta nesse contínuo processo de preparação para a defesa. Ficamos, inclusive, mais vulneráveis às doenças, pelo desgaste produzido por tanta tensão; os efeitos podem aparecer como quedas do sistema imunológico ou como a eclosão de alguma outra doença, sendo comum o aumento de queixas de dores de cabeça, de coluna, de estômago, TPM, pressão alta, gastrite, insônia. Assim, não é sem razão que os distúrbios de ansiedade têm tido índices crescentes e a síndrome do pânico tem sido diagnosticada cada vez com maior frequência.

Pode-se tratar as queixas individuais, medicando as infecções, as dores ou a ansiedade. Como esses sintomas aparecem isoladamente e não são sempre iguais, eles acabam não sendo considerados como um problema de saúde pública - o efeito de um estilo de vida que tem repercussão em uma parcela grande da população e que produz perdas significativas no funcionamento de uma comunidade.

Seria interessante pesquisar os efeitos da sobrecarga pelo stress e pelo stress traumático em funcionários de bancos (aqueles que enfrentam diretamente os assaltos) policiais, equipes de primeiros socorros, guardas carcerários, funcionários das lojas mais visadas por assaltantes ou moradores de regiões com altos índices de violência.

Cada vez mais torna-se necessário prestar atenção nesse círculo crescente de desgaste e stress e cuidar dessa questão de uma forma mais ampla e mais efetiva. Também é preciso lembrar que sofrimento mental é um problema de saúde que merece a mesma atenção que o sofrimento físico.

O que vem acontecendo é que estamos nos acostumando a aceitar a sobrecarga como uma condição do estilo de vida atual e pensar que não tolerar isso é algum tipo de fraqueza ou incompetência pessoal. Algumas vezes vemos pessoas, inclusive médicos, assumindo uma atitude conformista frente ao diagnóstico de stress como se nada pudesse ou devesse ser feito.

Quando se trata do stress traumático, assumimos a mesma postura, acreditando que não há nada que possamos fazer individualmente, já que é decorrente de uma experiência externa. Essa atitude revela um outro tipo de sintoma decorrente do stress que é o contato com os sentimentos de impotência e de desamparo. É preciso ver que altos índices de stress ou mesmo o stress traumático prejudicam a pessoa e não podem ser tomados como parte natural da vida - cuidar disso é uma necessidade e existem meios para isso.

O primeiro passo é reconhecer a existência do sofrimento e acreditar que pode ser tratado. Não é erro nem incapacidade ter dificuldade de superar episódios difíceis e marcantes. Conseguir isso pode ser, em si, um elemento fortalecedor da personalidade e da auto-estima.

Podemos dispor de recursos que nos permitam compreender melhor o sofrimento e os mecanismos envolvidos nesse processo. Um deles é o de alertar e educar para que esse aspecto seja reconhecido; só podemos cuidar de alguma coisa quando a identificamos e reconhecemos. Outra forma é levantar quais os recursos pessoais aos quais podemos recorrer, que podem trazer o alívio e o reequilíbrio, de tal forma que não precisemos ficar a mercê de situações externas. Ainda outro meio é o de recorrer à força dos diferentes grupos de que participamos e usá-la a favor de uma melhor integração e bem-estar. Obter apoio e suporte é uma condição importante para validar nossa experiência e nos fortalecer para fazer frente ao sofrimento.

Nossos relacionamentos são pontos de fortalecimento interno que ajudam a compartilhar a vida e seu sentido, a dividir responsabilidades e desafios. Em cada contexto - família, amigos, trabalho - temos um padrão de envolvimento e de compromisso.

Os familiares em geral tornam-se mais disponíveis e carinhosos com aqueles que atravessam momentos difíceis, desde que possam entender qual o processo que está em andamento. Os amigos são outra fonte importante de atenção e cuidado nos momentos de crise. Muitas vezes é no contexto do trabalho que esses temas ficam deslocados e desconsiderados; talvez isso reflita a falta de compreensão do ganho que se pode obter ao voltar a atenção para esse assunto no contexto profissional.

As empresas são um instrumento importante que têm muito a lucrar - e aqui uso a expressão nos dois sentidos, o figurado e o concreto - com o investimento na saúde mental de seus funcionários, para que possam reagir melhor às tensões e dificuldades que o stress produz.

Quando uma empresa prioriza a produtividade e os lucros que ela possa obter, ela está centrada em seus objetivos básicos; mas terá mais sucesso aquela em que seus funcionários se sintam bem, 'vestem a camisa' e sentem-se apoiados por ela em suas dificuldades. Esses são os mais leais e dedicados; querem crescer e, para isso, querem que a empresa cresça. É uma relação de confiança e um compromisso de ambas as partes. Empregados que se sentem desrespeitados ou abusados, vêem-se sem valor ou sem vínculo com a empresa, não vestem a camisa e não se esforçam.

Quando a empresa investe em treinamento e conhecimento dessas questões, ela mostra que acredita e valoriza seu empregado e que ele merece ser bem cuidado. Por outro lado, ao habilitar seus funcionários a sentirem-se melhor e disporem de mais energias, ela os leva a produzirem mais e melhor, uma vez que terão mais satisfação e mais energia.

Preparar as pessoas a lidarem com o stress tem um efeito preventivo importante, evitando a perda da força de trabalho e da produtividade. Também instrumentaliza essas pessoas a fornecerem suporte mútuo quando houver um evento concreto que ameace um dos membros de determinada comunidade - ainda que seja a comunidade profissional. Isso corresponde a criar coesão e valorização recíproca de pessoas que devem conviver longas horas partilhando atividades e objetivos comuns.

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Escala de Stress para adultos

Escala de Stress para jovens

Infelizmente, apesar da insistência não consegui contactar o responsável pelas tabelas para obter sua permissão para a tradução para o português e sua publicação nesse site!

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Bibliografia sugerida

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Efeitos da Violência Urbana

O stress é uma reação normal e esperada às exigências diárias que nos coloca em estado de atenção e permite que concentremos nossa atenção naquilo que temos que resolver. Quando vivido em baixa ou média intensidade, o stress favorece nossa capacidade de adaptação e contribui para enfrentarmos os desafios de modo positivo. No entanto, ao atingir níveis muito elevados, ele tem efeito contrário e pode trazer dificuldades ou mesmo a falência de nossa capacidade de adaptação. Stress elevado e ou constante pode bloquear nossas respostas frente a uma experiência. Podemos comparar isso com os atletas que treinam regularmente, para manter a boa forma e obter os melhores resultados. Pessoas que não se exercitam sentem falta do condicionamento físico para desenvolver algum esporte, assim como os melhores atletas, se atingirem a exaustão, não conseguem realizar nem suas marcas habituais. O mesmo processo acontece com nossas capacidades mentais. É preciso manter um nível adequado e produtivo, se desejamos realizar bem nossas tarefas.

Quando vivemos uma experiência assustadora, o stress é intenso e excede nossa capacidade de administrar os sentimentos. Frente a uma situação incomum, imprevisível e angustiante, experimentamos a impossibilidade de reagir de acordo com a necessidade premente. A exigência do momento é maior do que a habitual, exige recursos pessoais que desconhecemos e, assim, provoca uma sobrecarga, difícil de ser elaborada.

É esse esgotamento dos recursos internos que desencadeia o trauma psicológico ou o stress traumático: cria o bloqueio da resposta e a paralisação frente a uma necessidade. Essa paralisação interna é o que entendemos como trauma. Não é uma questão mecânica ou quantitativa, mas é uma experiência dinâmica que envolve aspectos fisiológicos, cognitivos e emocionais.

Nossa herança fisiológica nos deixou construções cerebrais de épocas distintas, com capacidades e habilidades também distintas. Essas diferentes áreas de controle do cérebro organizam o funcionamento físico e mental de forma integrada. Em condições normais, somos dirigidos por nossa capacidade racional, por nossos conhecimentos e escolhas voluntárias. Mas quando vivemos uma ameaça maior, são as áreas mais primitivas do cérebro que assumem o controle e nos colocam em estado de alerta máximo, com vistas à necessidade de defesa. Sofremos uma mudança brusca em nossa forma de pensar, de sentir e em nossa fisiologia, independente de nossa vontade consciente.

Por isso é que nosso organismo dispara uma carga de adrenalina e nos deixa de prontidão ao ouvirmos um estampido, mesmo antes de sabermos do que se trata. Nosso corpo nos prepara para lutar ou correr - a resposta básica de proteção produzida por nossos hormônios antes que possamos pensar e decidir. A adrenalina - o estado de prontidão física - é a resposta fisiológica que percebemos com mais clareza, mas a reação atinge todo o organismo através de um complexo sistema de hormônios e neurotransmissores. Ao constatar que não há razão para correr ou lutar, chamamos essa experiência de susto - uma espécie de alarme falso. Mas o organismo já respondeu a isso e gastamos algum tempo até nos sentirmos de volta à condição normal.

Esse estado de prontidão acontece sempre que nossos instintos nos dizem que um evento pode trazer riscos à nossa sobrevivência e ao nosso bem-estar; isso diz respeito tanto ao próprio indivíduo como àquelas pessoas próximas e queridas que são importantes em nossa vida.

Essa condição não ocorre apenas com quem viveu experiências concretas e reais. Pessoas que não sofreram agressões diretamente começam a mostrar os mesmos sinais e sintomas, como efeito de uma campanha constante e poderosa que nos coloca no papel de vítimas e enfatiza as crueldades que têm acontecido.

A capacidade de se identificar, isto é, de sentir que aquilo pode também acontecer conosco, pode trazer os mesmos resultados da experiência real - são as vítimas indiretas. Isso porque o que imaginamos ou acreditamos tem o mesmo efeito da exposição às situações reais.

Se uma pessoa que já foi assaltada em seu carro em algum farol e, em outro momento, percebe uma imagem em seu retrovisor, sua reação física é imediata: sofre uma descarga de adrenalina, pela associação das duas situações. E essa descarga se mantém mesmo que ela possa perceber a diferença e notar que, dessa vez, era apenas um pedestre atravessando a rua entre os carros. Leva algum tempo para tranquilizar-se e sentir-se normal outra vez.

Assim, uma ameaça tanto pode ser um fato real acontecendo à nossa frente que exige resposta imediata, como uma situação simbólica ou indireta, que não nos apresenta fatos ou mudanças concretas, mas mobiliza igualmente nossos sentimentos e exige uma resposta adaptativa.

É por causa dessa forma de reagir que nos sentimos angustiados e tensos quando o marido, filho ou outra pessoa querida atrasa em seu horário de chegada. Se o pano de fundo de nosso sentimento é o de que possa ter acontecido algo sério, nossa mente e nosso corpo começam a reagir de acordo com essa idéia. Quanto mais pensamos nisso, mais sofremos e mais parece que o tempo não passa, mais nos sentimos impotentes, embora necessitando fazer alguma coisa com relação a isso.

Esse á a base da cena que todos conhecemos quando alguém chega atrasado e, apesar de ficarmos sabendo que está tudo bem, não conseguimos relaxar e brigamos pelo atraso (na verdade brigamos para descarregar a tensão acumulada e informar ao outro que não nos permita sofrer tanto!!)

Desse modo, diversas situações - por exemplo, encarar um revólver ou uma faca ou ser informado/a de que uma pessoa muito querida está sob ameaça - podem ser disparadoras da resposta de proteção. Pensar ou imaginar que isso esteja ocorrendo, também funciona como um disparador.

Então enfrentamos o stress da violência se formos vítimas diretas dela ou se soubermos que alguém querido foi atingido e até quando ouvimos relatos sobre os diversos episódios de violência que os noticiários nos apresentam constantemente e percebemos que podemos passar pela mesma coisa. A cada vez que imaginamos que podemos ser vítimas de agressões urbanas desse tipo, estamos sofrendo seus efeitos. E cada vez mais gente se sente vulnerável aos assaltos e sequestros que têm acontecido em nossos grandes centros.

Dessa forma acabamos vivendo estressados quase permanentemente e esse processo se realimenta ao recebermos as notícias de mais assaltos, ao pararmos assustados no farol, ao chegarmos em casa e trancarmos as portas rapidamente antes de ir conferir se todos nossos familiares estão lá, salvos e seguros. Isso nos leva a manter um nível de stress elevado e permanente, que é o pano de fundo onde se somam mais notícias e imagens sobre agressões e violências diversas.

O medo e a insegurança são mais insidiosos do que pensamos e acabam minando nosso bem estar e qualidade de vida - influem em nossa forma de estar no mundo. Além do desgaste físico de estar absorvendo constantemente os hormônios do stress, temos também sua influência na forma como olhamos o mundo que nos rodeia, vendo-o como ameaçador e perigoso. Acabamos assumindo uma postura tensa e desconfiada com todos, especialmente em ambientes públicos. Podemos ter dificuldades em manter os relacionamentos sociais, pois esses sentimentos nos conduzem lentamente para o isolamento, assim como podemos ter dificuldades nas relações familiares se todos estiverem enfrentando as mesmas tensões. Podemos ter nossa capacidade produtiva prejudicada, pois boa parte de nossa energia se gasta nesse contínuo processo de preparação para a defesa. Ficamos, inclusive, mais vulneráveis às doenças, pelo desgaste produzido por tanta tensão; os efeitos podem aparecer como quedas do sistema imunológico ou como a eclosão de alguma outra doença, sendo comum o aumento de queixas de dores de cabeça, de coluna, de estômago, TPM, pressão alta, gastrite, insônia. Assim, não é sem razão que os distúrbios de ansiedade têm tido índices crescentes e a síndrome do pânico tem sido diagnosticada cada vez com maior frequência.

Pode-se tratar as queixas individuais, medicando as infecções, as dores ou a ansiedade. Como esses sintomas aparecem isoladamente e não são sempre iguais, eles acabam não sendo considerados como um problema de saúde pública - o efeito de um estilo de vida que tem repercussão em uma parcela grande da população e que produz perdas significativas no funcionamento de uma comunidade.

Seria interessante pesquisar os efeitos da sobrecarga pelo stress e pelo stress traumático em funcionários de bancos (aqueles que enfrentam diretamente os assaltos) policiais, equipes de primeiros socorros, guardas carcerários, funcionários das lojas mais visadas por assaltantes ou moradores de regiões com altos índices de violência.

Cada vez mais torna-se necessário prestar atenção nesse círculo crescente de desgaste e stress e cuidar dessa questão de uma forma mais ampla e mais efetiva. Também é preciso lembrar que sofrimento mental é um problema de saúde que merece a mesma atenção que o sofrimento físico.

O que vem acontecendo é que estamos nos acostumando a aceitar a sobrecarga como uma condição do estilo de vida atual e pensar que não tolerar isso é algum tipo de fraqueza ou incompetência pessoal. Algumas vezes vemos pessoas, inclusive médicos, assumindo uma atitude conformista frente ao diagnóstico de stress como se nada pudesse ou devesse ser feito.

Quando se trata do stress traumático, assumimos a mesma postura, acreditando que não há nada que possamos fazer individualmente, já que é decorrente de uma experiência externa. Essa atitude revela um outro tipo de sintoma decorrente do stress que é o contato com os sentimentos de impotência e de desamparo. É preciso ver que altos índices de stress ou mesmo o stress traumático prejudicam a pessoa e não podem ser tomados como parte natural da vida - cuidar disso é uma necessidade e existem meios para isso.

O primeiro passo é reconhecer a existência do sofrimento e acreditar que pode ser tratado. Não é erro nem incapacidade ter dificuldade de superar episódios difíceis e marcantes. Conseguir isso pode ser, em si, um elemento fortalecedor da personalidade e da auto-estima.

Podemos dispor de recursos que nos permitam compreender melhor o sofrimento e os mecanismos envolvidos nesse processo. Um deles é o de alertar e educar para que esse aspecto seja reconhecido; só podemos cuidar de alguma coisa quando a identificamos e reconhecemos. Outra forma é levantar quais os recursos pessoais aos quais podemos recorrer, que podem trazer o alívio e o reequilíbrio, de tal forma que não precisemos ficar a mercê de situações externas. Ainda outro meio é o de recorrer à força dos diferentes grupos de que participamos e usá-la a favor de uma melhor integração e bem-estar. Obter apoio e suporte é uma condição importante para validar nossa experiência e nos fortalecer para fazer frente ao sofrimento.

Nossos relacionamentos são pontos de fortalecimento interno que ajudam a compartilhar a vida e seu sentido, a dividir responsabilidades e desafios. Em cada contexto - família, amigos, trabalho - temos um padrão de envolvimento e de compromisso.

Os familiares em geral tornam-se mais disponíveis e carinhosos com aqueles que atravessam momentos difíceis, desde que possam entender qual o processo que está em andamento. Os amigos são outra fonte importante de atenção e cuidado nos momentos de crise. Muitas vezes é no contexto do trabalho que esses temas ficam deslocados e desconsiderados; talvez isso reflita a falta de compreensão do ganho que se pode obter ao voltar a atenção para esse assunto no contexto profissional.

As empresas são um instrumento importante que têm muito a lucrar - e aqui uso a expressão nos dois sentidos, o figurado e o concreto - com o investimento na saúde mental de seus funcionários, para que possam reagir melhor às tensões e dificuldades que o stress produz.

Quando uma empresa prioriza a produtividade e os lucros que ela possa obter, ela está centrada em seus objetivos básicos; mas terá mais sucesso aquela em que seus funcionários se sintam bem, 'vestem a camisa' e sentem-se apoiados por ela em suas dificuldades. Esses são os mais leais e dedicados; querem crescer e, para isso, querem que a empresa cresça. É uma relação de confiança e um compromisso de ambas as partes. Empregados que se sentem desrespeitados ou abusados, vêem-se sem valor ou sem vínculo com a empresa, não vestem a camisa e não se esforçam.

Quando a empresa investe em treinamento e conhecimento dessas questões, ela mostra que acredita e valoriza seu empregado e que ele merece ser bem cuidado. Por outro lado, ao habilitar seus funcionários a sentirem-se melhor e disporem de mais energias, ela os leva a produzirem mais e melhor, uma vez que terão mais satisfação e mais energia.

Preparar as pessoas a lidarem com o stress tem um efeito preventivo importante, evitando a perda da força de trabalho e da produtividade. Também instrumentaliza essas pessoas a fornecerem suporte mútuo quando houver um evento concreto que ameace um dos membros de determinada comunidade - ainda que seja a comunidade profissional. Isso corresponde a criar coesão e valorização recíproca de pessoas que devem conviver longas horas partilhando atividades e objetivos comuns.

Quando vivemos uma experiência assustadora, o stress é intenso e excede nossa capacidade de administrar os sentimentos. Frente a uma situação incomum, imprevisível e angustiante, experimentamos a impossibilidade de reagir de acordo com a necessidade premente. A exigência do momento é maior do que a habitual, exige recursos pessoais que desconhecemos e, assim, provoca uma sobrecarga, difícil de ser elaborada.

É esse esgotamento dos recursos internos que desencadeia o trauma psicológico ou o stress traumático: cria o bloqueio da resposta e a paralisação frente a uma necessidade. Essa paralisação interna é o que entendemos como trauma. Não é uma questão mecânica ou quantitativa, mas é uma experiência dinâmica que envolve aspectos fisiológicos, cognitivos e emocionais.

Nossa herança fisiológica nos deixou construções cerebrais de épocas distintas, com capacidades e habilidades também distintas. Essas diferentes áreas de controle do cérebro organizam o funcionamento físico e mental de forma integrada. Em condições normais, somos dirigidos por nossa capacidade racional, por nossos conhecimentos e escolhas voluntárias. Mas quando vivemos uma ameaça maior, são as áreas mais primitivas do cérebro que assumem o controle e nos colocam em estado de alerta máximo, com vistas à necessidade de defesa. Sofremos uma mudança brusca em nossa forma de pensar, de sentir e em nossa fisiologia, independente de nossa vontade consciente.

Por isso é que nosso organismo dispara uma carga de adrenalina e nos deixa de prontidão ao ouvirmos um estampido, mesmo antes de sabermos do que se trata. Nosso corpo nos prepara para lutar ou correr - a resposta básica de proteção produzida por nossos hormônios antes que possamos pensar e decidir. A adrenalina - o estado de prontidão física - é a resposta fisiológica que percebemos com mais clareza, mas a reação atinge todo o organismo através de um complexo sistema de hormônios e neurotransmissores. Ao constatar que não há razão para correr ou lutar, chamamos essa experiência de susto - uma espécie de alarme falso. Mas o organismo já respondeu a isso e gastamos algum tempo até nos sentirmos de volta à condição normal.

Esse estado de prontidão acontece sempre que nossos instintos nos dizem que um evento pode trazer riscos à nossa sobrevivência e ao nosso bem-estar; isso diz respeito tanto ao próprio indivíduo como àquelas pessoas próximas e queridas que são importantes em nossa vida.

Essa condição não ocorre apenas com quem viveu experiências concretas e reais. Pessoas que não sofreram agressões diretamente começam a mostrar os mesmos sinais e sintomas, como efeito de uma campanha constante e poderosa que nos coloca no papel de vítimas e enfatiza as crueldades que têm acontecido.

A capacidade de se identificar, isto é, de sentir que aquilo pode também acontecer conosco, pode trazer os mesmos resultados da experiência real - são as vítimas indiretas. Isso porque o que imaginamos ou acreditamos tem o mesmo efeito da exposição às situações reais.

Se uma pessoa que já foi assaltada em seu carro em algum farol e, em outro momento, percebe uma imagem em seu retrovisor, sua reação física é imediata: sofre uma descarga de adrenalina, pela associação das duas situações. E essa descarga se mantém mesmo que ela possa perceber a diferença e notar que, dessa vez, era apenas um pedestre atravessando a rua entre os carros. Leva algum tempo para tranquilizar-se e sentir-se normal outra vez.

Assim, uma ameaça tanto pode ser um fato real acontecendo à nossa frente que exige resposta imediata, como uma situação simbólica ou indireta, que não nos apresenta fatos ou mudanças concretas, mas mobiliza igualmente nossos sentimentos e exige uma resposta adaptativa.

É por causa dessa forma de reagir que nos sentimos angustiados e tensos quando o marido, filho ou outra pessoa querida atrasa em seu horário de chegada. Se o pano de fundo de nosso sentimento é o de que possa ter acontecido algo sério, nossa mente e nosso corpo começam a reagir de acordo com essa idéia. Quanto mais pensamos nisso, mais sofremos e mais parece que o tempo não passa, mais nos sentimos impotentes, embora necessitando fazer alguma coisa com relação a isso.

Esse á a base da cena que todos conhecemos quando alguém chega atrasado e, apesar de ficarmos sabendo que está tudo bem, não conseguimos relaxar e brigamos pelo atraso (na verdade brigamos para descarregar a tensão acumulada e informar ao outro que não nos permita sofrer tanto!!)

Desse modo, diversas situações - por exemplo, encarar um revólver ou uma faca ou ser informado/a de que uma pessoa muito querida está sob ameaça - podem ser disparadoras da resposta de proteção. Pensar ou imaginar que isso esteja ocorrendo, também funciona como um disparador.

Então enfrentamos o stress da violência se formos vítimas diretas dela ou se soubermos que alguém querido foi atingido e até quando ouvimos relatos sobre os diversos episódios de violência que os noticiários nos apresentam constantemente e percebemos que podemos passar pela mesma coisa. A cada vez que imaginamos que podemos ser vítimas de agressões urbanas desse tipo, estamos sofrendo seus efeitos. E cada vez mais gente se sente vulnerável aos assaltos e sequestros que têm acontecido em nossos grandes centros.

Dessa forma acabamos vivendo estressados quase permanentemente e esse processo se realimenta ao recebermos as notícias de mais assaltos, ao pararmos assustados no farol, ao chegarmos em casa e trancarmos as portas rapidamente antes de ir conferir se todos nossos familiares estão lá, salvos e seguros. Isso nos leva a manter um nível de stress elevado e permanente, que é o pano de fundo onde se somam mais notícias e imagens sobre agressões e violências diversas.

O medo e a insegurança são mais insidiosos do que pensamos e acabam minando nosso bem estar e qualidade de vida - influem em nossa forma de estar no mundo. Além do desgaste físico de estar absorvendo constantemente os hormônios do stress, temos também sua influência na forma como olhamos o mundo que nos rodeia, vendo-o como ameaçador e perigoso. Acabamos assumindo uma postura tensa e desconfiada com todos, especialmente em ambientes públicos. Podemos ter dificuldades em manter os relacionamentos sociais, pois esses sentimentos nos conduzem lentamente para o isolamento, assim como podemos ter dificuldades nas relações familiares se todos estiverem enfrentando as mesmas tensões. Podemos ter nossa capacidade produtiva prejudicada, pois boa parte de nossa energia se gasta nesse contínuo processo de preparação para a defesa. Ficamos, inclusive, mais vulneráveis às doenças, pelo desgaste produzido por tanta tensão; os efeitos podem aparecer como quedas do sistema imunológico ou como a eclosão de alguma outra doença, sendo comum o aumento de queixas de dores de cabeça, de coluna, de estômago, TPM, pressão alta, gastrite, insônia. Assim, não é sem razão que os distúrbios de ansiedade têm tido índices crescentes e a síndrome do pânico tem sido diagnosticada cada vez com maior frequência.

Pode-se tratar as queixas individuais, medicando as infecções, as dores ou a ansiedade. Como esses sintomas aparecem isoladamente e não são sempre iguais, eles acabam não sendo considerados como um problema de saúde pública - o efeito de um estilo de vida que tem repercussão em uma parcela grande da população e que produz perdas significativas no funcionamento de uma comunidade.

Seria interessante pesquisar os efeitos da sobrecarga pelo stress e pelo stress traumático em funcionários de bancos (aqueles que enfrentam diretamente os assaltos) policiais, equipes de primeiros socorros, guardas carcerários, funcionários das lojas mais visadas por assaltantes ou moradores de regiões com altos índices de violência.

Cada vez mais torna-se necessário prestar atenção nesse círculo crescente de desgaste e stress e cuidar dessa questão de uma forma mais ampla e mais efetiva. Também é preciso lembrar que sofrimento mental é um problema de saúde que merece a mesma atenção que o sofrimento físico.

O que vem acontecendo é que estamos nos acostumando a aceitar a sobrecarga como uma condição do estilo de vida atual e pensar que não tolerar isso é algum tipo de fraqueza ou incompetência pessoal. Algumas vezes vemos pessoas, inclusive médicos, assumindo uma atitude conformista frente ao diagnóstico de stress como se nada pudesse ou devesse ser feito.

Quando se trata do stress traumático, assumimos a mesma postura, acreditando que não há nada que possamos fazer individualmente, já que é decorrente de uma experiência externa. Essa atitude revela um outro tipo de sintoma decorrente do stress que é o contato com os sentimentos de impotência e de desamparo. É preciso ver que altos índices de stress ou mesmo o stress traumático prejudicam a pessoa e não podem ser tomados como parte natural da vida - cuidar disso é uma necessidade e existem meios para isso.

O primeiro passo é reconhecer a existência do sofrimento e acreditar que pode ser tratado. Não é erro nem incapacidade ter dificuldade de superar episódios difíceis e marcantes. Conseguir isso pode ser, em si, um elemento fortalecedor da personalidade e da auto-estima.

Podemos dispor de recursos que nos permitam compreender melhor o sofrimento e os mecanismos envolvidos nesse processo. Um deles é o de alertar e educar para que esse aspecto seja reconhecido; só podemos cuidar de alguma coisa quando a identificamos e reconhecemos. Outra forma é levantar quais os recursos pessoais aos quais podemos recorrer, que podem trazer o alívio e o reequilíbrio, de tal forma que não precisemos ficar a mercê de situações externas. Ainda outro meio é o de recorrer à força dos diferentes grupos de que participamos e usá-la a favor de uma melhor integração e bem-estar. Obter apoio e suporte é uma condição importante para validar nossa experiência e nos fortalecer para fazer frente ao sofrimento.

Nossos relacionamentos são pontos de fortalecimento interno que ajudam a compartilhar a vida e seu sentido, a dividir responsabilidades e desafios. Em cada contexto - família, amigos, trabalho - temos um padrão de envolvimento e de compromisso.

Os familiares em geral tornam-se mais disponíveis e carinhosos com aqueles que atravessam momentos difíceis, desde que possam entender qual o processo que está em andamento. Os amigos são outra fonte importante de atenção e cuidado nos momentos de crise. Muitas vezes é no contexto do trabalho que esses temas ficam deslocados e desconsiderados; talvez isso reflita a falta de compreensão do ganho que se pode obter ao voltar a atenção para esse assunto no contexto profissional.

As empresas são um instrumento importante que têm muito a lucrar - e aqui uso a expressão nos dois sentidos, o figurado e o concreto - com o investimento na saúde mental de seus funcionários, para que possam reagir melhor às tensões e dificuldades que o stress produz.

Quando uma empresa prioriza a produtividade e os lucros que ela possa obter, ela está centrada em seus objetivos básicos; mas terá mais sucesso aquela em que seus funcionários se sintam bem, 'vestem a camisa' e sentem-se apoiados por ela em suas dificuldades. Esses são os mais leais e dedicados; querem crescer e, para isso, querem que a empresa cresça. É uma relação de confiança e um compromisso de ambas as partes. Empregados que se sentem desrespeitados ou abusados, vêem-se sem valor ou sem vínculo com a empresa, não vestem a camisa e não se esforçam.

Quando a empresa investe em treinamento e conhecimento dessas questões, ela mostra que acredita e valoriza seu empregado e que ele merece ser bem cuidado. Por outro lado, ao habilitar seus funcionários a sentirem-se melhor e disporem de mais energias, ela os leva a produzirem mais e melhor, uma vez que terão mais satisfação e mais energia.

Preparar as pessoas a lidarem com o stress tem um efeito preventivo importante, evitando a perda da força de trabalho e da produtividade. Também instrumentaliza essas pessoas a fornecerem suporte mútuo quando houver um evento concreto que ameace um dos membros de determinada comunidade - ainda que seja a comunidade profissional. Isso corresponde a criar coesão e valorização recíproca de pessoas que devem conviver longas horas partilhando atividades e objetivos comuns.

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Escala de Stress para adultos

Escala de Stress para jovens

Infelizmente, apesar da insistência não consegui contactar o responsável pelas tabelas para obter sua permissão para a tradução para o português e sua publicação nesse site!

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Bibliografia sugerida

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